Ficar Invisível
Daí eu tô aqui, deitada na grama, eu imaginava que seria mais confortável, mas as formigas já me picaram e a luz do Sol me machuca e esse bichinho verde e fedido que eu esmaguei no meu cabelo tornaram tudo mais real.
Mas tudo bem, aqui estou invisível.
Não tem internet, não tem escola, não tem mãe, nem nada que me alcance.
Mas eu ainda tenho o celular, caso alguém suspeito se aproxime.
Ainda, acho dificíl ficar invisível, minha cabeça não está realmente aqui. Tem coisas que eu não consigo bloquear e toda vez que alguma lembrança vem à tona, dói como no momento, não sou a única a lembrar. Ainda estou presente nas lembranças dos outros.
Ainda carrego o peso das decisões que tomei, a posição que fui forçada a escolher.
Ser invisível talvez seja não precisar escolher… ser tão neutra, tão solúvel que não teria sentido. Assim, talvez eu experimentasse algum tipo de liberdade… só ver como as coisas fluem sem precisar escolher como e em que sentido.
A força da escolha, porém, sempre foi imaginada por mim como a própria liberdade. Poder mudar, renovar… significaria usufruir da liberdade, do livre-arbítrio.
Pois eu escolho ficar aqui, entre os insetos, tem algumas mangas com as quais eu posso me alimentar. Eu não vou precisar NUNCA voltar a falar com alguém. E essa é minha escolha final. A liberdade que me recuso.
Ainda assim, para que eu fique invisível completamente, seria necessário que ninguém sentisse minha falta. Eu tenho família e amigos que irão perguntar por mim, alguns nunca irão se esquecer. É um impasse dificíl.
Não posso mandar notícias por ninguém, descobririam meu esconderijo. Talvez queiram esconder-se comigo… e iam querer conversar.
Eu imagino se não ficaria louca aqui… daqui a pouco o Sol vai se pôr e se eu sentir frio? E se eu não esquecer das pessoas já que consigo me envergonhar tão vividamente do passado? E se eu sonhar?
Estaria presa ainda, visível, pois me sentiria mais visível do que nunca.
Eu me debruço pra mais perto da mangueira e começo a descascar o tronco da árvore… talvez a árvore não goste de mim e ela é tão imponente, tão visível e ao mesmo tempo tão frágil ao meu toque.
A operadora me manda uma mensagem “Está com saudade de alguém que mora longe? Ligue agora!”.
Pois é, eu estou. Mas se eu contatasse alguém agora estaria de novo na coleção de pessoas visíveis que estão fadadas a cumprir tarefas, a fechar ciclos e prestar contas.
E meu corpo estaria visível, sujeito a julgamentos, preconceitos e violação.
Meu coração estaria visível através dos meus olhos. A saudade, o desespero, a excitação, o desconforto, o tédio e a obsessão são mais visíveis do que o resto.
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