Acordar

Acordar pela manhã, era como uma derrota.

Você abre os olhos, inspira não como o vitorioso, mas como um sobrevivente. Quando expira, não é como um alívio, mas como um resmungo.

Sobrevivi, com todas as dores, o joelho há muito tempo dobrado reclama do espreguiçamento.

Verifica todo seu corpo a procura das feridas, mas no fim das contas não importa, a derrota se mostra em pensamento. No desejo que persiste mesmo que não haja esperança, mesmo que  não haja estratégia, mesmo que não haja nada.

Levantar, esquecer o café porque já não se permite carinhos, escovar os dentes e se escorar na janela. Encostar a testa fria no vidro pra sentir o Sol. Há Sol? Buscar nos sons da rua um desenho que expresse algum amor.

Descer a rua e passar por rostos que já sentem o Sol há muito mais tempo, passar por todos eles com alguma vergonha, que não sincera, mas com a devida educação.

Como tem coragem de se sentir triste?

São só 20 anos.

Você sente tédio.

Ao girar a chave na fechadura todos os dias, você se lança à sorte. Que ambição pode haver pra você?

A única ambição que eu aceitava era a de ser aceita. Por isso eu estudo, por isso eu trabalho, por isso me caso.

Por isso eu como ou deixo de comer.

Por isso escolho ser advogada e não uma atendente numa loja de ferramentas.

Por isso eu escolho que seja rosa e não azul.

Por isso eu escolho que seja azul e não rosa.

Por isso eu escolho ter razão.

 

Mas permita, por favor permita que seja eu a escolhida, a amada.

Quando fecha os olhos você se vê outra, aquela que não vai chegar tão tarde. Aquela que vai saber o que dizer. Aquela que vai saber ser misericordiosa, que não vai invejar. Nas suas fantasias não é o tédio que impera, mas também não é a vitória.

Viver na glória me tornaria fraca, estúpida, talvez não menos fútil ou burra, mas fraca. Sei que o orgulho não me serve, mas tudo que sou até aqui veio disso.  E não quero medalhas.

O que me incomoda é o desejo. Ele está aqui e não se vai e não há orgulho que cure. Se houvesse uma medalha pra me mostrar o quanto fui corajosa, o quanto persisti… na presença de um afago ao olhar, eu a comeria. Não há nada que preste no orgulho. Não se eu não estiver inteira.

 

 

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